quinta-feira, 22 de maio de 2014

AO TEU OESTE

No céu
És Afrodite e eros
inseparáveis em seu disfarce
mãe e filho
refugiados temorosos de Typhon
pai de todos os monstros
último filho de Gaia

Ao teu lado
Perto de ti
Sou o jovem Ganímedes
levo-te água quando sentes sede
levo prazer a tua mente

No céu
carrego comigo a Sadalsuud
A fortuna que só percebo
ao teu lado

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Cara Maria,

Uma semana atrás essa seria uma carta em que eu te pediria desculpas, de coração, sem me importar se estive certo ou errado. Eu te desejaria felicidade e ficaria feliz só pela oportunidade de te dizer isso. Eu te falaria que nunca mais farei tal coisa pelo resto da minha vida, que você foi uma grande lição e que, apesar das infelicidades e de desejar que isso tudo nunca tivesse acontecido, eu me sinto bem por ter aprendido. Eu sei que dificilmente você me perdoaria e que esta carta seria inútil, só te chatearia ainda mais, mas eu gostaria que você soubesse que sinto de verdade pelo que fiz.

Mas acontece, Maria, que nesse mesmo dia que senti de todo coração que te devo um pedido de desculpas (pois a ideia já estava na minha cabeça muito antes do nosso último encontro), eu descobri todo o mal que você me fez.

Eu não sabia, até então, quantos níveis da minha vida você tinha prejudicado. Eu já sabia que você espalhava para todos os nossos conhecidos a sua versão exagerada da nossa história e nunca lutei para desmentir isso, porque as pessoas com quem me importo de verdade sabem que eu não sou o monstro que te machucou como você diz. E eu sei que você sabe disso também, só te é mais conveniente agir assim.

Você acha que é superior, Maria, mas você se rebaixa e revida a quem você considera inferior. Você se diz uma pessoa bondosa, mas você não tem o dom da compreensão. Você não tem nenhuma compaixão.

Infelizmente eu imagino que mais feliz do que por meu pedido de desculpas, você ficaria em saber que você desgraçou muitos aspectos da minha vida. Você só não me tirou a capacidade de me recuperar. E é por isso que agora te escrevo. Porque, mais do que nunca, ficará guardada na minha memória a lição que aprendi. Teu nome e a nossa história, no entanto, esquecerei assim que puser o ponto final desta carta.

A maior verdade, e que guardei para te contar apenas aqui, no final, é que essa carta, mesmo depois do que soube e escrevi, ainda é um pedido de perdão. Porque reconheço que não sou melhor que você e não sou melhor que ninguém, a única diferença é que agora só tenho espaço no meu peito para a felicidade e coisas boas.


Desejo-te o melhor,
A.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Pequena ode aos meus desconhecidos

Somos todos filhos de corações partidos
Sozinhos, apartados
Unidos por um molde quebrado em pedaços
Alguns abrem para outros escutarem
Escuto tudo por trás da porta fechada

sexta-feira, 27 de julho de 2012

A unidade

De repente o pensamento que todo ser humano já experimentou: Por que sou eu? E depois, sem que eu me lembre dos meus erros ou infelicidades, fico intrigada por estar presa nesse corpo e nessa mente sem poder experimentar ser outras pessoas, ter outras vidas e ter consciência disso, mas é como se caso eu, no meu presente corpo e mente, não existisse, também não existisse toda a história, toda a matéria. Eu me pergunto se deus pode fazer isso, e logo penso se deus seriamos todos nós de uma vez só e a essência da sensação de protagonismo que cada pessoa vivencia fosse um pedaço, um átomo do corpo desse deus, o Universo. Agora, em vez do pensamento individualista que me regia no começo do parágrafo e me isolava das pessoas pensando "eu", uma extrema sensação de Unidade toma conta de mim... e permito.




"- Oh Jacinto, que estrela é esta, aqui, tão viva, sobre o beiral do telhado?

- Não sei... e aquela, Zé Fernandes, além, por cima do pinheiral?

- Não sei.

Não sabíamos. Eu por causa da espessa crosta de ignorância com que saí do ventre de Coimbra, minha Mãe espiritual. Ele, porque na sua Biblioteca possuía trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o Saber, assim acumulado, forma um monte que nunca se transpõe nem se desbasta. Mas que nos importava que aquele astro além se chamasse Sírio e aquele outro Aldebarã? Que lhes importava a eles que um de nós fosse Jacinto, outro Zé? Eles tão imensos, nós tão pequeninos, somos a obra da mesma Vontade. E todos, Uranos ou Lorenas de Noronha e Sande, constituímos modos diversos dum Ser único, e as nossas diversidades esparsas somam na mesma compacta Unidade. Moléculas do mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim... Do astro ao homem, do homem à flor do trevo, da flor do trevo ao mar sonoro. [...]

E depois (como eu notei) devíamos considerar que, sobre cada um desses grãos de pó luminoso, existia uma criação, que incessantemente nasce, perece, renasce. Nesse instante, outros Jacintos, outros Zés Fernandes, sentados às janelas de outras Tormes contemplam o céu noturno, e nele um pequenininho ponto de luz, que é a nossa possante Terra por nós tanto sublimada. Não terão todos esta nossa forma, bem frágil, bem desconfortável, e (a não ser no Apolo do Vaticano, na Vênus de Milo e talvez na Princesa de Carman) singularmente feia e burlesca. Mas, horrendos ou de inefável beleza; colossais e duma carne mais dura que o granito, ou leves como gases e ondulando na luz, todos eles são seres pensantes e têm consciência da Vida - porque decerto cada Mundo possui o seu Descartes, ou já o nosso Descartes os percorreu a todos com o seu Método, a sua escura capa, a sua agudeza elegante, formulando a única certeza talvez certa, o grande Penso, logo existo. Portanto todos nós, Habitantes dos Mundos, às janelas dos nossos casarões, além dos Saturnos, ou aqui na nossa Terrícula, constantemente perfazemos um ato sacrossanto que nos penetra e nos funde - que é sentirmos no Pensamento o núcleo comum das nossas modalidades, e portanto realizarmos um momento, dentro da Consciência, a Unidade do Universo!" (Eça de Queirós, A cidade e as serras)

domingo, 22 de abril de 2012

Invídia, "invidere": Não ver

Não há nada que eu queira que eu possua.
Em sua memória,
eu não sou os momentos de glória.
Sou a desventura,
dono do que foi ruim,
dono da penumbra
E do coito despropositado...
Sou dono do que te foi físico,
Mas dos alísios ao Champs-Élysées
Nada me pertenceu.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Alguns poetas

O que é efêmero não se vai
pois mesmo que o verão seja fugaz,
remanescem as marcas e sardas
mesmo que a felicidade acabe,
as rugas do riso ficam no rosto.

A ideia de cada coisa
dilata o tempo
ao som do ímpeto do deboche dos ignorantes
e do desperdício da nossa poesia
que soa como qualquer coisa boçal .

Somos nossos próprios poetas
e nossas próprias musas.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

As sensações

Abri a minha caixa de recordações e li tudo
Senti-me derrotada pelo que já passou
Senti meu rosto molhado
Senti a alma apascentar
Sentir os olhos secarem
Senti as pálpebras pesarem
Senti tudo passar como brisa
Senti que é efêmero
Lembrei-me da poesia de Alberto Caeiro
Passa já porque é natural.