terça-feira, 29 de setembro de 2015

MEDÍOCRE

Quando eu te encontrei, meu amor,
naquela noite tão comum de nossas vidas
nada brilhou, a lua não apareceu
nosso primeiro beijo nunca aconteceu
porque eu desviei o rosto
e o beijo que aconteceu depois
não mexeu com meu estômago
não mudou minha vida.

Daquela noite, não me recordo de quase nada
só de como eu odiava o vestido que eu usava
e de que tu fumavas um cigarro ruim.
No dia seguinte, acordei em tua cama
leito comum
de tantas outras
e segui para o trabalho.

A vida foi juntando nossos dias
porque era conveniente
e nós casamos
sem nenhuma comemoração
só pra eu oficialmente cuidar de tua casa.
O tempo foi passando
Os filhos foram nascendo
e eu só era feliz e sossegada quando tu viajavas
porque eu podia culpar a distância pela falta de amor em nosso lar.

Agora teu rosto me é feio novamente
e não faz diferença se estás aqui.

terça-feira, 19 de maio de 2015

LAPSO

Eu poderia jurar que aquele pedaço de papel pesava mais do que realmente deveria.

E no meu caminho, a bolsa pendia com aquele peso, a aflição de compreender o que realmente estava escrito ali, porque até então eu só tinha passado os olhos por aquelas palavras.

Pela cidade, eu conseguia enxergar os cartazes de "Procurado" colados nos postes - nestes não havia minha foto, sequer meu nome ou alguma descrição das minhas características físicas, mas eu sabia que era eu.

É por isso que o papel pesava, eu estava ali.

Percebi que a minha respiração estava diferente, eu ponderava o futuro, como eu deveria lidar com aquilo.

Li e reli algumas vezes.

Até que percebi.

O telefone tocou. Era engano.

E tudo voltou ao estado normal.

domingo, 26 de abril de 2015

PRODITÓRIO

Abrir os olhos com toda essa luz
A princípio, machuca
Tudo se preenche com luz, com verdades
e deixar minha quimera e o meu mundo ideal é doloroso

Aqui, sinto o sangue correr rapidamente
Insatisfação corre pelo meu corpo
Cigarro após cigarro
Amaldiçoando um dito popular

No limbo das minhas próprias decisões
Não sei se nos teus abraços oníricos
Não sei se no teu colo de perfídia

Mas é aqui que estou
Apesar de tudo, 
Vulpina dessa história.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

PALAVRAS

Guardo uma a uma todas as tuas palavras
até as palavras que não dirigistes a mim,
mas a outras.
Estas,
inclusive,
são as mais importantes,
pois é nelas que encontro toda a incoerência do teu discurso.
Mantenho todas elas em uma pasta como um dossiê, 
que só revelarei no dia de teu julgamento
(e neste dia eu bem sei como você tentará se defender de cada prova).
Porque sei ler pessoas,
sei ler você,
sei ler intenções,
sei ler o que há por trás das palavras.
E não me diga que não há ciência ou raciocínio lógico
Não é um simples engano de esposa paranoica 
julgar que há mais nas palavras do que elas foram ditas
há todo um contexto por trás do que é dito 
e se você tivesse um pequeno conhecimento do assunto
saberia que tentar me enganar é um esforço em vão
(são anos de estudos e leituras)
Mas eu te entendo,
é o único argumento que te resta.
Sem ele, você não tem nenhuma defesa.

Guardo todas as palavras,
principalmente as que li secretamente.
Engulo todas elas
e mais alguns comprimidos.

terça-feira, 24 de março de 2015

COMUNICAÇÃO EXTRATERRESTRE

Houston, we've had a problem here

estou perdendo contato

e há ruído na comunicação

Minha órbita foi modificada

e sinto que minha nave está cada vez mais distante da Terra

perdi conexões importantes,

mas a informação principal

é que

começo a esquecer 

de como era a vida antes

Aqui, isolado

nesse espaço infinito

muito mais interessante

Há apenas lógica e linguagem

Linguagem, não comunicação

Eu ainda consigo visualizar a Terra

e o que acontece nela

Mas não sinto muito

E temo às vezes

que entre a humanidade e eu

há apenas um fio irregular de emoção

Quão forte ele será?

...

.....

........

sábado, 7 de março de 2015

DEZEMBRO

Quando o mês de dezembro chegava meus olhos se fixavam na varanda - era tempo em que a cidade inteira começava a montar na rua as barracas de quermesse e o tão brilhante parque de diversões. Ouvia o tilintar dos martelos nos metais que soavam com a beleza de uma música atonal.

Dezembro sempre significava muita coisa. O fim de um ano ruim. A possibilidade de um futuro bom no ano que seguia. A ansiedade por janeiro, mês do meu aniversário, o sonho de presentes, a esperança de que a família magicamente mudasse para sempre e não brigassem nunca mais.

As outras crianças brincavam lá embaixo, corriam juntas, soltas. Mas eu corria para a varanda para ver e ouvir de cima e sozinha aquele sonho de metal que se colocava de pé na minha rua. Brinquedos enferrujados, velhos, coloridos, bonitos, mágicos, como meus sonhos.

IGNOTA

Carrego:
Olhos cansados
ansiedade
e comprimidos cor de céu.

Mas o que mais pesa é o que está ausente.
O coração vazio
O coração farto.

As esperanças que um dia tive, agora esperam outros
O caminho da tua casa não faz mais sentido:
É o caminho de outra pessoa.

Lágrima presa no olho
Não consigo ver
Preciso aceitar o pranto
Assim enxergarei novamente.