domingo, 26 de abril de 2015

PRODITÓRIO

Abrir os olhos com toda essa luz
A princípio, machuca
Tudo se preenche com luz, com verdades
e deixar minha quimera e o meu mundo ideal é doloroso

Aqui, sinto o sangue correr rapidamente
Insatisfação corre pelo meu corpo
Cigarro após cigarro
Amaldiçoando um dito popular

No limbo das minhas próprias decisões
Não sei se nos teus abraços oníricos
Não sei se no teu colo de perfídia

Mas é aqui que estou
Apesar de tudo, 
Vulpina dessa história.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

PALAVRAS

Guardo uma a uma todas as tuas palavras
até as palavras que não dirigistes a mim,
mas a outras.
Estas,
inclusive,
são as mais importantes,
pois é nelas que encontro toda a incoerência do teu discurso.
Mantenho todas elas em uma pasta como um dossiê, 
que só revelarei no dia de teu julgamento
(e neste dia eu bem sei como você tentará se defender de cada prova).
Porque sei ler pessoas,
sei ler você,
sei ler intenções,
sei ler o que há por trás das palavras.
E não me diga que não há ciência ou raciocínio lógico
Não é um simples engano de esposa paranoica 
julgar que há mais nas palavras do que elas foram ditas
há todo um contexto por trás do que é dito 
e se você tivesse um pequeno conhecimento do assunto
saberia que tentar me enganar é um esforço em vão
(são anos de estudos e leituras)
Mas eu te entendo,
é o único argumento que te resta.
Sem ele, você não tem nenhuma defesa.

Guardo todas as palavras,
principalmente as que li secretamente.
Engulo todas elas
e mais alguns comprimidos.

terça-feira, 24 de março de 2015

COMUNICAÇÃO EXTRATERRESTRE

Houston, we've had a problem here

estou perdendo contato

e há ruído na comunicação

Minha órbita foi modificada

e sinto que minha nave está cada vez mais distante da Terra

perdi conexões importantes,

mas a informação principal

é que

começo a esquecer 

de como era a vida antes

Aqui, isolado

nesse espaço infinito

muito mais interessante

Há apenas lógica e linguagem

Linguagem, não comunicação

Eu ainda consigo visualizar a Terra

e o que acontece nela

Mas não sinto muito

E temo às vezes

que entre a humanidade e eu

há apenas um fio irregular de emoção

Quão forte ele será?

...

.....

........

sábado, 7 de março de 2015

DEZEMBRO

Quando o mês de dezembro chegava meus olhos se fixavam na varanda - era tempo em que a cidade inteira começava a montar na rua as barracas de quermesse e o tão brilhante parque de diversões. Ouvia o tilintar dos martelos nos metais que soavam com a beleza de uma música atonal.

Dezembro sempre significava muita coisa. O fim de um ano ruim. A possibilidade de um futuro bom no ano que seguia. A ansiedade por janeiro, mês do meu aniversário, o sonho de presentes, a esperança de que a família magicamente mudasse para sempre e não brigassem nunca mais.

As outras crianças brincavam lá embaixo, corriam juntas, soltas. Mas eu corria para a varanda para ver e ouvir de cima e sozinha aquele sonho de metal que se colocava de pé na minha rua. Brinquedos enferrujados, velhos, coloridos, bonitos, mágicos, como meus sonhos.

IGNOTA

Carrego:
Olhos cansados
ansiedade
e comprimidos cor de céu.

Mas o que mais pesa é o que está ausente.
O coração vazio
O coração farto.

As esperanças que um dia tive, agora esperam outros
O caminho da tua casa não faz mais sentido:
É o caminho de outra pessoa.

Lágrima presa no olho
Não consigo ver
Preciso aceitar o pranto
Assim enxergarei novamente.

INSÍPIDA

Um cigarro:
a fumaça penetra os pulmões
e o corpo fica lânguido.
Escuto a cidade:
os carros apressados,
o som de ondas de um mar urbano.
A alma insípida:
o discreto tédio de quem não está apaixonado.

HESITO

[Primeira hesitação:
Nunca voltarei]

A caminho da minha cidade natal, observo ao longo da estrada todas as novidades. Em frente à igreja, uma nova pracinha é construída. Mas a casa dos meus pais permanece a mesma. Dezembro chegou e me trouxe consigo para onde vivi por tanto tempo.

Meu pai ainda é o mesmo - o que come, os dias da semana em que bebe, os cochilos após o almoço, o tom de voz... As expressões da minha mãe permanecem as mesmas, as mesmas chantagens com apelo emocional, as mesmas preocupações.

Aos poucos, enquanto permaneço, sinto as mãos dos mortos - esperanças mortas - que apertam meu calcanhar e me puxam para o subsolo. Pretendem me enterrar.

Vou embora.
Nunca voltarei.

[Segunda hesitação:
Não amarei]

De volta à cidade, onde meus átomos, por segurança, permaneceram durante a minha estadia na cidade fantasma (é preciso ser um fantasma para enfrentá-los), sigo para um encontro.

Estendo os pés, cruzados, em cima do sofá. Cavidades completa e cuidadosamente expostas. Aqui, aparentemente, não há nenhum temor.

Mas há.

Os fluidos transitam de um corpo para o outro. O espírito de Laura e a metáfora do piano branco tomam conta de mim - eles querem que a vida seja tudo, ou vão embora. De súbito, sinto que me entrego: eis meu corpo, eis meus 60kg, como sinal do meu... amor?

Vou embora.
Não.
Amarei.